LUCAS RODRIGUES – O que une as pessoas? 13 pessoas com histórias diferentes, mas uma coisa em comum. Todas são indetectáveis. Essa é a base da Campanha realizada pelo pela Secretaria de Saúde. A Campanha traz 13 pessoas que vivem com HIV e se tornaram indetectáveis após adesão ao tratamento está dividida em duas etapas, sendo a primeira com pessoas que vivem com HIV e receberam o diagnóstico recentemente e outras que descobriram ser HIV positivo nos anos 80 e 90, logo no início da epidemia de AIDS no mundo. Todos os personagens contam em suas histórias como receberam o diagnóstico, a luta pela aceitação e as dificuldades para aderirem ao tratamento.
A direção do campus da Unicnec em parceria com a Secretaria de Saúde municipal, trousse essa pauta para debate, e na noite desta segunda-feira (17), realizou no auditório Romildo Bolzan, um seminário expositivo com o tema Indetectável: estigmas e preconceitos. A mesa de debate contou com a presença de dois personagens da Campanha, Rafaela Queiroz (Rafuska) e Leonardo Cezimbra, além da consultora do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP), Sônia Aloia, e de um funcionário da saúde do município, Jeandro Borba. Mas porque essas pessoas foram escolhidas? Afinal quem são elas?
Silvia, 49 anos, uma mulher casada, mãe e avó. Descobriu que estava com o vírus do HIV aos 21 anos, justo quando estava grávida de oito meses da sua filha.
Rafaela, 27 anos, nasceu com o vírus. Filha de um casal positivo, ela perdeu os pais quando era muito nova e precisou do cuidado dos tios para poder lidar com a doença.
Já Leonardo, 36 anos, descobriu que estava infectado aos 30, após terminar um relacionamento. Ele que já sofria por causa de sua orientação sexual, agora precisava lidar ainda com o problema do HIV.
Jeandro, 31 anos, é o único dos quatro que não possui o vírus, mas precisou conviver com pessoas que possuem a doença, não apenas por causa de seu trabalho, mas também por causa de um relacionamento que teve há alguns anos.
Medo, tristeza, preocupação; esses são alguns dos muitos sentimentos que passam os portadores do vírus do HIV, após descobrirem que estão com a doença. O medo maior de Silvia era pensar que poderia ter transmitido o vírus para sua filha quando estava no oitavo mês de gestação. Os primeiros meses pós nascimento foram muito preocupantes principalmente para ela, quando os primeiros exames deram positivo. “Na época ainda não existia tanta tecnologia e a medicina não era tão avançada como nos dias de hoje’. Foi apenas com um ano e meio que um novo exame detectou negativo para o vírus. O resultado foi um alivio para Silvia, que via sua filha bem e livre para viver a vida sem a doença.
Rafaela passou por uma situação semelhante, quando soube que sua irmã mais velha, não havia adquirido o vírus do HIV, entretanto o medo dela era outro, a rejeição. Desde nova a jovem foi orientada a não falar da doença na escola, sempre precisando disfarçar os remédios que tomava. “Era remédio para gripe, para alergia, mas que tanta alergia?”. Mas foi durante uma aula de Ciências, por meio de uma fotografia (de uma criança com Aids) em um livro, ela percebeu porque era melhor manter o segredo. “Eu vi o que poderia acontecer comigo. Ali eu soube intrinsecamente que não podia falar”. Conforme foi crescendo ela começou a tomar consciência da doença e passou a entender “o grande tabu que é ter HIV”.
Esse tabu, que já foi difícil para Silvia e Rafaela enfrentar, foi ainda mais para Leonardo, que é homossexual. Após revelar sua orientação sexual (aos 27 anos), Leonardo precisou passar por essa situação novamente, três anos depois, após descobrir que estava com o vírus. Ele acredita que tenha contraído em uma relação sexual que teve com um ex- companheiro.
A REVELAÇÃO
O drama de ter que revelar para o mundo que está com a doença é enorme. A situação sempre preocupa, ainda mais com o afastamento das pessoas. Muitos ainda tem o pensamento de que se aproximar de uma pessoa infectada já é suficiente para “pegar a doença”. Mas em alguns casos a reação das pessoas pode surpreender.
Quando Rafaela resolveu contar para suas amigas que tinha o vírus, aos 13 anos de idade, ela se foi surpreendida pela reação das colegas. “Eu mandei uma mensagem para elas dizendo: tenho HIV. Só que elas falaram ‘está bem’ e seguiram a conversa”. Mas nem sempre a reação pode ser assim. No último dia da faculdade de Recursos Humanos, Rafuska, como gosta de ser chamada, contou aos colegas sobre a doença e o resultado não foi bom. “Foi um espanto total. Foi perceptível o quanto algumas pessoas se afastaram com o tempo”, citou a jovem. Já Leonardo acrescenta que: “Ganhei muito respeito, mas muitos se afastaram também”.

RELACIONAMENTO
Enquanto que para uns o convívio com uma pessoa com HIV pode ser inviável, outros são tidos como exemplos do que o ser humano ainda é capaz de fazer coisas boas. Jeandro é um exemplo disso, o funcionário que trabalha na saúde municipal tem contato com pessoas infectadas com o vírus diariamente e não vê problemas com isso. Em 2017 Jeandro teve um relacionamento sério com uma pessoa que tinha a doença e teve que aguentar os comentários maldosos.
“Tu está preparado para perder ele? Tem certeza que é isso que você quer para sua vida? Esses eram alguns dos muitos questionamentos que Jeandro precisou ouvir durante o tempo que manteve seu relacionamento. “As pessoas não conseguiam falar comigo. Até hoje dizem que eu tenho a doença por eu trabalhar com isso”, ressaltou Jeandro.
DUAS PERSONALIDADES
Viver com duas personalidades parece ser uma característica das pessoas que tem o vírus do HIV. Nesse caso a pessoa precisa lidar com isso até conseguir coragem para contar a doença para os outros. Tanto Rafaela quanto Leonardo falaram sobre esse dilema e a sensação após a divulgação da doença. “Eu tinha uma dupla personalidade, uma na rua e a outra em casa”, afirmou Rafuska. Para Leonardo parecia que ele vivia “um personagem” para as outras pessoas. Mas a sensação de alívio foi maior. “Foi a melhor coisa que senti”, colocou Leonardo. “Eu pude contar e tive esse retorno positivo”, completou Rafaela.

INDETECTÁVEL X
INTRANSMISSÍVEL
O tema trazido pela Campanha Indetectável causa dúvidas por muitos não saberem o real significado do termo utilizado. Indetectável é aquela pessoa que tem o vírus, mas ele não aparece no exame. Nesse caso se o tratamento for interrompido a doença retorna.
A questão de pessoas com vírus HIV não transmitirem a doença por meio de relação sexual é questionável, mas quando se trata de casos intransmissíveis essa confirmação ganha um amento significativo de confirmação. Não é cem por cento confirmado que evita a transmissão, mas é mais seguro.

VIDEO
Durante o debate foi apresentado um vídeo da Campanha Indetectável, apresentando mais uma personagem.
Beatriz, uma mulher de 70 anos, branca, advogada bem sucedida. Ela é a cara da Campanha e representa a quebra desse preconceito, mostrando que todos não estão livres dessa doença.
Após passar por muitas lutas, em 2019 ela completa 20 anos que entrou para o grupo dos Indetectáveis. Em seu depoimento ela dá uma lição de vida para quem precisa lidar com o vírus do HIV.
“Não se esconda. A gente escondido vira monstros e vamos assumindo a moralidade que a sociedade quer nos impor. A gente merece ser feliz e viver, porque felicidade existe até para quem tem HIV”, relatou Beatriz Pacheco.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os convidados tiveram a chance de passar um recado ao público presente no auditório Romildo Bolzan.
Silvia Aloia questionou o auxilio dos nos representantes, pedindo mais investimento para que o tratamento de doenças como a Aids possam continuar surgindo. Rafaela Queiroz aconselhou aos presentes fazerem o teste do vírus para pelos experimentarem a sensação do medo que atinge muitas pessoas, e poder deixar a situação “interrogativa” que muitos podem estar vivendo.
Jeandro Borba levou a questão da Empatia, sintetizando que: “Empatia não é se colocar no lugar do outro, mas sim, é poder ver as barreiras da pessoa e ajudar a diminuí-las”. Leonardo Cezimbra reforçou o acolhimento e o apoio das pessoas mais próximas que é necessário nessas horas para que os infectados não desistam do tratamento.
“Eu não conseguiria sem o apoio da minha família”, finalizou Leandro.

DOEÇA
O vírus HIV pode ser transmitido por meio de relações sexuais sem proteção, compartilhamentos de seringas compartilhadas, e de mãe para filho durante a gestação e amamentação.
Seu tratamento é feito com medicamentos antirretrovirais fornecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Estes medicamentos combatem o vírus e fortalecem o sistema imune, mas sem chegar a eliminá-los.
No final do ano acontece o Dezembro Vermelho, mês dedicado a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis como a Aids.


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