Um material escuro e mole depositado em trechos da praia em Tramandaí, despertou a curiosidade de moradores e ‘veranistas de inverno’ que dão uma fugidinha da pandemia nas cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre para a costa. A lama preta, explica o Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), é resquício da lagoa que existia há seis mil anos na área que hoje é faixa de areia. A ação de ciclones mais intensos e ressacas do mar ajudam a expor o barro na praia.

Os registros começaram há cerca de três semanas, que coincide, por exemplo, com o ciclone-bomba, que atingiu o Estado e Santa Catarina causando destruição. A lama aparece principalmente entre o antigo terminal turístico de Tramandaí e Nova Tramandaí, descreve o diretor-geral do Ceclimar, o geólogo Eduardo Barboza. Também fósseis de animais que habitaram a região na última era glacial estão sendo encontrados na praia.

O barro preto, na verdade, forma uma camada sob a areia da praia, explica Barboza. As ondas que crescem em força e altura na ressaca acabaram removendo a areia, fazendo aflorar a lama, que está relacionada ao complexo lagunar que se estendia até a área que hoje é o limite do continente e o oceano. O complexo lagunar avançava mais dois quilômetros e foi sendo reduzido devido ao deslocamento da costa. Hoje se limita às lagoas do Gentil, Custódias e Manoel Nunes.

Outro material que também é exposto pelas ressacas é a turfa, que são componentes orgânicos, como folhas, que se depositavam no final do assoreamento da lagoa. A turfa é verificada mais em Nova Tramandaí e Balneário Pinhal. As formações chamam a atenção. A turfa se mistura à lama, gerando componentes que lembram rochas.

O diretor-geral do centro, com sede em Imbé, vizinha a Tramandaí, esclarece que se a areia for removida, a camada de lama vai aparecer na extensão.

“Não é algo que aconteceu só agora. É histórico”, observa Barboza. Os primeiros relatos da lama são dos anos de 1960 e 1970. Na época, o trecho da orla entre o antigo terminal turístico e Nova Tramandaí acabou sendo batizado de Barro Preto, em referência à lama que aflorou da areia.

No Litoral Norte, os registros deram uma trégua entre 2007 e 2016, quando voltaram a ocorrer, observa o especialista.

Barboza fez imagens com drone no trecho que está com os rastros do material este ano. As manchas pretas tomam conta de um trecho da costa. Segundo o diretor-geral do Ceclimar, a lama vai desaparecer com o passar do tempo. “O material seca com o sol e vira pó”.

Ciclones e ressacas também provocam outras ocorrências inusitadas. Barboza diz que chegam à praia fósseis de espécies de animais que viveram na última era glacial, de 15 mil anos atrás. “São vértebras, partes de ossos de patas e placas de carcaça, como de um tatu gigante que habitava a região”, lista o geólogo. Os achados vão ficar expostos no museu do Ceclimar.

Foto: Eduardo Barboza