O perfil escolhido pelos pais no momento da adoção vem mudando e deixou de ser um entrave no processo. Essa é a conclusão da jornalista paulista Ana Davini, após pesquisa que resultou no livro “Te Amo Até a Lua”. Por cinco anos, ela se debruçou sobre números para entender os motivos da demora.

O interesse na pesquisa surgiu depois que ela e o marido decidiram adotar uma criança e se depararam com diversos obstáculos “A informação inicial que nós recebemos é que a demora se devia aos casais não se adequarem à realidade e quererem delimitar o perfil. Esse é o discurso oficial de todos os assistentes sociais, dos psicólogos, da Vara da Infância”, afirma.

17568704Após analisar os dados do Cadastro Nacional de Adoção, realizar entrevistas e visitar abrigos, ela percebeu que, na verdade, a demora no processo era motivada por outras razões.”Eu descobri que o gargalo está tanto na falta de funcionários das Varas de Infância, que são pouquíssimos perto da demanda, e na demora na destituição familiar”, explica. Após quase três anos de espera Ana e o marido conseguiram adotar uma menina.

O livro apresenta dados do cadastro referentes a 2016 e mostra que no Brasil, 62% dos pais não se importam mais com o gênero das crianças e que 42% não têm preferências pela raça. Ainda conforme o livro, mesmo as crianças com deficiência física têm chance de serem adotadas. Há mais de 14 mil pretendentes dispostos a adotar as 1.697 crianças e adolescentes com algum problema de saúde físico ou mental disponíveis para adoção.

O problema, segundo ela, também não está na idade. Há apenas centenas de crianças de cada idade até 7 anos para milhares de pretendentes. A situação complica um pouco para crianças entre 8 e 10 anos, e só fica terrível para aquelas a partir dos 11 anos, quando existem 3.954 para apenas 485 candidatos a pais.

Realidade também vem mudando no Estado
No Rio Grande do Sul, os números ainda não são os ideais, mas as autoridades destacam que a realidade também vem mudando. Quase 70% dos pais já não se importam com o gênero e 31% não têm restrições quanto a raça. Quando se trata de idade, a preferência dos pretendentes ainda é por crianças. Mais de 65% ainda querem crianças de até três anos e apenas e 28% aceitam adotar crianças com deficiências.

A presidente do Instituto Amigos de Lucas – grupo de apoio aos casais que querem adotar – Rosi Prigol, explica que, geralmente, os pais chegam com um perfil definido nas reuniões, mas alteram ao longo dos encontros.

“Eles vem com perfil de criança até cinco anos, mas nos decorrer, a gente trabalhando bastante a adoção tardia, isso tem mudado bastante. Aqueles que adotam continuam vindo e vão desmitificando o que os outros acham que é ruim. Temos o caso de um casal com um bebê que era HIV positivo e que fez com que as pessoas abrissem também para o HIV”, afirma.

Rosi destaca que um dos maiores problemas é que, mesmo com a mudança no perfil, os pais estão tendo que buscar crianças em outros estados em razão das falhas no Cadastro Nacional. Desde 2009, a ONG realiza a busca ativa no sistema. Juízes de outros Estados disponibilizam uma lista de crianças para a adoção e a ONG faz a ponte com pretendentes do Rio Grande do Sul. Já foram concluídas 81 adoções desde o início do trabalho.

MP defende abertura dos abrigos aos pretendentes
A promotora da Infância e Juventude, Cinara Dutra, também destaca que vem percebendo a mudança no perfil, mas que ainda se pode avançar. Ela defende que para incentivar ainda mais os pais é necessário abrir as casas de acolhimento e permitir que eles convivam com as crianças, o que não acontece hoje.

“No momento em que um habilitado começa a vistar uma casa de acolhimento, ele não vai se preocupar se a criança é parda ou negra. É determinante em uma adoção que as casas sejam abertas, que os habilitados sejam bem-vindos”, explica.

Cinara frisa que a demora na destituição do poder familiar e a falta de funcionários do poder judiciário ainda são o principal entrave no processo. Em Porto Alegre, de acordo com ela, 409 crianças poderiam estar em uma família substituta, mas dessas, apenas 213 estão no Cadastro Nacional e as demais estão inativas por apresentarem alguma pendência.

Ela afirma que um novo juiz foi designado para a Vara da Infância e Juventude, totalizando três magistrados, mas que ainda não é suficiente para atender a demanda. “É preciso melhorar as equipes para realizar a vinculação para que o habilitado consiga chegar a uma criança”, explica.

O morador de Santa Maria, Luciano Jaques, decidiu se candidatar pra adotar uma criança em 2007. Ele e a mulher queriam um bebê de seis meses. Após visitarem um abrigo, porém, se apaixonaram por dois irmãos e resolveram mudar o perfil pretendido.

“Quando a gente encontrou eles, não tivemos dúvidas, a gente partiu para a mudança das características. A maioria dos pretendentes idealiza, mas eles não sabem que essa idealização cai por terra, quando tu vê o brilho no olhar de uma criança”, conta.

TJ fará campanha para incentivar adoção tardia

O Tribunal de Justiça diz que os avanços ainda são tímidos e que é preciso reforçar o trabalho com os habilitados. A titular da Coordenadoria da Infância e Juventude do Rio Grande do Sul, Juíza-corregedora Andréa Rezende Russo, reconhece que nas comarcas onde são feitos trabalhos de conscientização da adoção tardia, o número de crianças adotadas tem subido.

Em outubro, o Tribunal vai lançar uma campanha para todo o Estado para tratar sobre o tema. “O que nós pretendemos é informar a sociedade, os pretendentes, dessas dificuldades de colocação dessas crianças de perfil de difícil acesso e, com isso, esperamos sensibilizar no sentido da flexibilização do perfil”, ressalta.

A juíza ainda diz que todos os habilitados de Porto Alegre começarão a ser chamados, a partir de agosto. O objetivo é que eles recebam informações, tirem dúvidas e também que se trabalhe a adoção tardia. Ela admite que o número de funcionários na Vara da Infância não é a ideal, mas garante que desde o ano passados, avanços já foram feitos na Vara de Porto Alegre.

GAÚCHA