O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, segundo dados do ICPS, sigla em inglês para Centro Internacional de Estudos Prisionais, do King’s College, de Londres. A disseminação de doenças contagiosas, em especial a infecção pelo HIV/AIDS, Hepatite C (HCV) e Tuberculose (TB), constitui sério risco à saúde de detentos, seus contatos (especialmente familiares e trabalhadores penitenciários) e comunidades nas quais irão se inserir após o livramento.

Mesmo antes da prisão, muitos presos estão expostos a fatores de alto risco para a contração da doença, como desnutrição, higiene escassa e condições de vida inadequadas. Os estudos sobre a saúde da população prisional brasileira são pouco numerosos, mas todos revelam situação grave no que se refere à infecção pelo HIV, HCV e TB. Nesse sentido, é fundamental para o controle da doença um diagnóstico correto e rápido, além do tratamento adequado e desenvolvimento de medidas de prevenção, uma vez que a presença da tuberculose no sistema prisional sem controle tem sido uma ameaça.

Devido a essa preocupação, há cerca de 4 anos, sob a coordenação da professora Lia Possuelo, são desenvolvidos projetos no Presídio Regional de Santa Cruz do Sul (PRSCS). O primeiro passo, dado lá em 2011, foi o de realizar uma triagem dos presidiários para verificar a prevalência da tuberculose. Para isso, eram coletadas amostras de escarro que posteriormente eram submetidas a exames laboratoriais para diagnóstico da doença.

Em seguida, iniciou-se um projeto de extensão, onde foram trabalhadas doenças como sífilis, HIV, hepatite B e C e tuberculose. “Nós coletávamos o sangue e o escarro e enviávamos para o Laboratório Regional do Estado, parceiro desse projeto. Assim, nós desenvolvemos um fluxo de encaminhamento dos exames, algo que até então não existia”, explica Lia.

Segundo a professora coordenadora do projeto, a intenção das ações era a de conhecer o perfil epidemiológico dos apenados. Após um ano de funcionamento, o projeto de extensão findou e os esforços foram concentrados na pesquisa. “Atualmente temos dois projetos da graduação em andamento no presídio”, informa Lia. Um dos projetos é desenvolvido pela acadêmica Ana Júlia Reis, no qual foi feita a genotipagem das bactérias, ou seja, a análise genética das bactérias que causaram a doença nos apenados, no intuito de verificar se a transmissão estava ocorrendo dentro do presídio ou fora. “Se as amostras (das bactérias) coletadas se apresentassem idênticas, isso significava que a contaminação ocorreu dentro do presídio. Caso fossem amostras distintas, isso provava que o contágio se deu provavelmente na comunidade”, relata Ana Júlia.

A acadêmica relacionou então os dados genéticos dos presidiários envolvidos com o perfil epidemiológico traçado, a fim de investigar uma possível relação. “O nosso maior objetivo é finalizar os projetos e encaminhar os resultados e considerações obtidas ao presídio e demais órgãos competentes, no intuito de alertar sobre a atual situação e criar uma abertura para se pensar e traçar caminhos para combater essa doença”, explica Lia.

Lia é membro do Conselho Comunitário do Presídio. “Todos os projetos e resultados já alcançados são apresentados nas reuniões do conselho, que tem uma ampla variedade de segmentos representados pelos membros. É lá que são pensadas estratégias”, salienta.

Entre as ações desenvolvidas pelos projetos, está também a avaliação de tuberculose ativa (quando há reativação da tuberculose) e latente (quando a pessoa infectada consegue controlar a bactéria, não manifesta sintomas e não transmite a doença) nos trabalhadores dos presídios, estudo esse realizado pela acadêmica Caroline Busatto. Para atingir o intuito, trabalhou-se com quatro presídios diferentes, de modo que foram entrevistados 114 trabalhadores. A taxa de infecção latente entre os trabalhadores foi semelhante àquela encontrada na população em geral, pois, boa parte dos trabalhadores não realizou o exame de rotina e não sabia os resultados.

O trabalho continua

A partir do segundo semestre deste ano, iniciou-se uma pesquisa maior, já aprovada no Edital Universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a ser realizada em todo o estado do Rio Grande do Sul. Conforme explica Lia, a mesma está sendo dividida em duas partes. A primeira parte trata da avaliação dos ambulatórios de saúde prisional, para verificar se a estrutura comporta a realização do diagnóstico e tratamento da doença.

A segunda parte vai consistir na continuidade das ações desenvolvidas nos projetos da graduação: serão feitas análises genéticas das bactérias que causam tuberculose nos apenados, essa parte, será realizada contando com a parceria de Laboratórios e Universidades. “Assim, poderemos comparar dentro do estado inteiro como está a situação da tuberculose, se as bactérias são iguais ou não e, a partir disso, pensar em estratégias de intervenção”, relata Lia. O projeto tem o período de três anos para ser realizado e já foi aprovado pela Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe).

 

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Foto: Yaundé Narciso
*Professora Lia Possuelo acompanhada das acadêmicas envolvidas no projeto, Ana Júlia Reis (esq) e Caroline Busatto (dir)